Empresários André da Rocha e Marlos Schmidt falaram sobre a realidade e perspectivas para o setor
A primeira edição do Happy Hour com Tecnologia do ano de 2023 reuniu como debatedores os empresários André da Rocha, diretor administrativo da Master Soluções que Conectam e Marlos Davi Schmidt, diretor da Indústria de Máquinas ERPS, para falar sobre “Máquinas e equipamentos - inovação e automação”. Como mediador, o presidente executivo do IBTeC, Paulo Griebeler.
O mediador abriu as discussões falando sobre a importância do Happy Hour com Tecnologia como uma ação que vai ter sequência ao longo de 2023, como uma das ações comemorativas aos 50 anos do Instituto.
Sobre o assunto deste Happy Hour, Griebeler salientou que o setor de máquinas é um dos segmentos aos quais o IBTeC se dedica; por isto a importância de tratar deste tema exatamente quando o setor calçadista se prepara para a Fimec, maior feira de insumos, equipamentos, máquinas e componentes para o setor coureiro-calçadista.
Perguntados sobre como vêem a evolução do setor coureiro-calçadista quando o assunto é inovação, Marlos Schmidt afirmou que “esta é uma pauta leve, positiva e proativa”. André da Rocha iniciou sua participação na discussão lembrando que vem trabalhando com o setor de calçados desde os anos de 1980, sempre envolvido com máquinas e produção, e sempre atento aos números. “A respeito de termos diminuído nosso ritmo de crescimento nos últimos 20 anos, seja por questões internas, seja por questões externas, a qualificação das indústrias de calçados tem crescido muito”. Lembrou que “no início dos anos 1990 chegaram ao Rio Grande do Sul as primeiras máquinas de costura computadorizadas, e houve muita dificuldade para introduzir e implementar estas tecnologias, porque havia um receio de que fossem apenas para as grandes empresas. Hoje, estas tecnologias fazem parte do dia a dia de praticamente todas as indústrias de calçados do Brasil”. O nível tecnológico evoluiu bastante no setor calçadista, entende André.
Sob o ponto de vista de Marlos “as empresas devem fazer reflexões sobre os modos como calculam os resultados de seus investimentos, porque quando eles são feitos, os resultados são muito positivos, bem além do payback tradicional”.
Quando se compara a realidade tecnológica e de automação do setor com outros segmentos, como o automotivo, por exemplo, qual o estágio que vive a indústria calçadista? André da Rocha entende que o processo de robotização tende a se acelerar nos próximos anos. A indústria de automóveis usa robôs desde a década de 1980, mas ainda com gargalos que precisam ser vencidos, como a qualidade da solda feita por robôs. A robótica será uma realidade cada vez mais presente nas indústrias de calçados, “mas muito numa visão de um robô colaborativo, que complementará a ação do ser humano, especialmente naquelas tarefas mais repetitivas”, acredita o empresário. André lembra que “precisamos trabalhar com a questão da diversificação - a indústria calçadista trabalha com itens muito diferentes em curtos espaços de tempo, o que é um desafio para a implementação da robótica”. Uma das questões é o fato de que “ninguém desenvolve robôs para calçados; nós somos uma indústria que usa esta tecnologia somente quando ela tem o custo reduzido. Eu vejo que a digitalização pode acelerar o processo, mas vejo a utilização da robótica muito mais com um viés de colaboração com os operários do que como substituição do trabalho humano”. Tecnologias vem para gerar escala e redução de custos, entende André da Rocha.
Marlos Schmidt afirma que “é preciso respeitar o tempo de cada setor, suas complexidades, suas peculiaridades. Daqui para a frente a gente entende que o setor está muito mais apto a aderir à implementação de robótica a mecanização do processo de produção do calçado. Cada vez mais, fará sentido usar estas tecnologias dentro do processo de produção. Lembrou que a ERPS já vem provocando o mercado há algum tempo, e há uma série de institutos que já oferecem expertise para a implementação destas tecnologias”.
Paulo Griebeler disse entender que o Brasil tem competência para competir com os grandes players mundiais, por ter mão de obra qualificada, tecnologias desenvolvidas e capacidade para aderir a novas tecnologias.
Marlos salientou que os principais desenvolvimentos realizados ao longo das últimas décadas têm uma conexão entre os fabricantes de calçados e as indústrias de máquinas. Enfatizou a importância da forma colaborativa como os fornecedores de máquinas e equipamentos trabalham com as indústrias de calçados. No entendimento de Marlos Schmidt, é importante valorizar o que se faz no Brasil, “porque realmente é destaque mundial, pela forma diferenciada como nossas inovações acontecem”.
O diretor da Máquinas ERPS afirmou que como é tradicional quando o assunto é tecnologia e investimentos, existe no alto da pirâmide um grupo de empresas que já enxergou as oportunidades, que estão trabalhando isto. Mas existe uma base que ainda precisa ser convencida e trabalhada sobre a necessidade de absorver as tendências já disponíveis.
Sobre tendências de mercado em novas tecnologias, Marlos salienta digitalização, robotização e aumento das inovações no processo.
Mas o que o setor precisa hoje “é ter uma maior aderência das empresas para as tecnologias que já estão disponíveis”. E a Fimec, que será realizada de 7 a 9 de março em Novo Hamburgo/RS, é um palco importante para que estas indústrias possam conhecer o que hoje estamos oferecendo em tecnologias e inovações para a indústria de couro e calçados.
“Tecnologia é sempre meio, ferramenta. Ela nunca vai ser o fim, e se este meio não facilitar, não tem por que existir”. Afirmação de André da Rocha, sobre a necessidade de conhecer a realidade de cada empresa antes de implementar inovações que mexam com a cultura da empresa. “O foco do negócio é entregar o calçado para o cliente, com a tendência de moda correta, com a qualidade certa, com a rapidez desejada. E as inovações não podem afetar o foco das indústrias. O grande desafio da digitalização é fazer a conexão entre o concreto e o que o computador vai te oferecer. É preciso fazer esta virada para que possamos aproveitar o melhor desta tecnologia”.
Perguntados sobre as possibilidades de que as inovações cheguem às pequenas e micro empresas, Marlos Schmidt enfatizou a relevância do trabalho que o Sebrae faz, corroborando com a informação trazida por Paulo Griebeler, sobre a abrangência do Sebrae. Marlos entende que o que realmente conta na hora de decidir por investimentos em inovação está muito ligado à visão que ele tem a respeito deste investimento, e lembrou que os pequenos empresários têm mais velocidade para implementar mudança, justamente pelo seu tamanho, e com a aplicação correta desta visão, elas conseguem resultados muito mais rapidamente.
André da Rocha enfatizou o problema da capacidade de obter crédito para os pequenos e micro, “o que pode impactar negativamente seus resultados”. Marlos reforçou esta visão, lembrando que as pequenas ainda têm mais acessos do que as médias empresas, porque são protegidas por sistemas como entidades de classe e os próprios organismos governamentais”.
Paulo Griebeler fez um convite aos micro e pequenos, para que procurem o Sebrae, para buscar apoio em seus projetos de crescimento e inovação. E lembrou que o IBTeC tem um programa permanente de trabalhar, conjuntamente, com o Sebrae para apoiar as indústrias calçadistas no desenvolvimento de inovações.
Paulo Griebeler perguntou aos dois convidados sobre a produtividade do setor hoje, depois de passar pelo período crítico da pandemia. André da Rocha afirmou que um equipamento normalmente é desenvolvido ou para melhorar a qualidade de um processo, ou para reduzir custos na produção. Este é o foco das indústrias de máquinas e equipamentos, e corroborou a colocação de Marlos Schmidt, de que há uma cultura colaborativa no desenvolvimento de tecnologias no setor. André lembrou que há uma tendência de pensar em grandes transformações quando se fala em inovação, “quando na verdade podem ser pequenas alterações produzindo grandes resultados”.
Melhorar a produção e/ou a produtividade dos nossos clientes. Este é o propósito dos fabricantes de máquinas, afirmou Marlos Schmidt. Por isto a importância de trabalhar para aprimorar os processos produtivos dos clientes das indústrias de máquinas. Lembrou que a Fábrica Conceito é um espaço onde os fabricantes de máquinas e soluções para o setor calçadista podem comprovar os resultados que estão oferecendo aos fabricantes de calçados, potencializando a imagem da capacidade de execução de cada máquina em atender a este propósito.
Sobre incentivos para pesquisa de inovações, Marlos Schmidt disse entender que são caminhos muito burocráticos e difíceis de acessar, o que dificulta para a maioria das empresas. Existem oportunidades, mas elas ainda não estão facilmente conectadas às empresas que precisariam destes recursos. Entende que o processo é muito engessado ainda.
André da Rocha entende que o grande desafio está em fazer mais projetos juntos, para conseguir dialogar melhor, porque as instituições de ensino de tecnologia têm ritmos e formas diferentes da indústria. É preciso exercitar este diálogo para alinhar as necessidades. André lembra que as grandes transformações em materiais e tecnologias absorvidas pelo setor de calçados nas últimas décadas vêm de grandes players do setor esportivo, principalmente.
Paulo Griebeler salientou que o IBTeC tem uma divisão para atender esta necessidade através do seu Núcleo de Inovação Tecnológica, o NIT, que pode apoiar as indústrias do setor neste sentido.
E as startups, têm contribuído para o setor calçadista? Marlos entende que “comparado com outros setores, nós estamos distantes. Outros segmentos estão trabalhando de uma forma mais aberta, utilizando as startups como meio, potencializando o trabalho delas, mas o nosso setor ainda não tem ainda um caminho percorrido nesta área. É uma questão cultural, que ainda precisa ser trabalhada dentro do setor, no entendimento de Marlos Schmidt.
Para André da Rocha, "a indústria calçadista é um setor empresarial muito diferente, por ter muitas empresas, que trabalham com moda, com produtos que têm um ciclo de vida cada vez mais curto, um processo que exige muita agilidade". André lembrou o trabalho que a Feevale vem fazendo, no sentido de promover a interação entre as startups e as indústrias.
Uma das maiores dificuldades para o desenvolvimento de automação para o setor de calçados é o fato de que as indústrias de máquinas precisam apresentar linguagem simplificada para o uso destes equipamentos, pontua André. Ao que Marlos acrescentou que “nem sempre a tecnologia mais avançada é a mais adequada”. É preciso respeitar o tempo de cada setor e de cada empresa.
Paulo Griebeler provocou os convidados a falarem sobre Fimec e Fábrica Conceito, com cinco linhas de produção de cinco produtos diferentes, com tecnologias diferentes, que envolvem desde robôs que interagem com os operários, materiais diferenciados, uso de grafeno em um forro de calçado. ERPS e Master são apoiadores do projeto e apresentarão suas inovações dentro do projeto.
André entende que a Fimec é uma referência nas Américas, por toda a história e a consistência que se tem no Brasil como fabricantes de calçados e fornecedores de matérias-primas. A feira acaba sendo uma vitrine para que sejam identificadas tendências e rumos a seguir. A Fábrica Conceito consegue ao mesmo tempo que tem tecnologias de última geração, e vantagens na questão ambiental, apresentar processos mais básicos, que muitas empresas ainda não conseguiram implementar. Nas Américas se tem uma quantidade muito grande de indústrias de calçados, nos mais diferentes níveis de desenvolvimento tecnológico, e todos têm coisas interessantes para ver na Fábrica Conceito.
Marlos Schmidt entende que a Fábrica consegue atender qualquer perfil de empresa, desde a que esteja no topo da pirâmide de tecnologia, até aquela que esteja na base em termos de desenvolvimento tecnológico.
Ao final do debate, Paulo Griebeler fez um convite para que todos visitem a Fábrica Conceito nos três dias da Fimec, para ver em operação inovações em tecnologias de produção, máquinas, equipamentos e soluções em componentes.
A próxima edição do Happy Hour com Tecnologia será realizada no dia 22 de março de 2023, a partir de 18h, na modalidade híbrida (com apresentação no Salão de Eventos do IBTeC, e transmissão pelos canais digitais oficiais da instituição). O tema será “Tecnologia do Grafeno - Perspectivas e aplicações em calçados e componentes”, tendo como debatedor o Dr. Ricardo Oliveira, diretor de tecnologia da 2D Materials, de Singapura. Como mediador, o vice-presidente executivo do IBTeC, Dr. Valdir Soldi.
Os patrocinadores do Happy Hour com Tecnologia de 2023 são: Grendene, Calçados Ramarim, Shimadzu do Brasil, Zahonero e Revista Tecnicouro.